Os blocos Samba & Folia e Ki Beleza mostram uma face do Carnaval brasileiro que vai além da festa. Nas ruas de Salvador, samba, ancestralidade, religiosidade e identidade negra transformam os desfiles em manifestações de memória e resistência cultural.
SALVADOR, BRASIL — Se em Portugal as festas populares levam bairros inteiros para as ruas, com música, cortejos e tradições transmitidas entre gerações, Salvador guarda uma experiência própria, profundamente marcada pela presença africana na formação cultural brasileira.
É neste cenário que Samba & Folia e Ki Beleza mantêm vivo um Carnaval no qual música e história caminham juntas. Baianas, sambistas, samba de roda, percussão, dança, pinturas afro e referências à religiosidade de matriz africana fazem parte de uma manifestação que ultrapassa o entretenimento.
Samba & Folia: 27 anos de história
Criado em 1999, o Samba & Folia chega a 2026 com 27 anos de existência. Ao longo da sua trajetória, o bloco tem fortalecido a presença do samba no Carnaval de Salvador e já contou com nomes como Péricles, Revelação, Grupo Clareou e Lucas Morato.
A atuação da entidade também acontece fora do período carnavalesco, com eventos, oficinas e outras iniciativas destinadas à valorização do samba, da cultura negra e à formação de novos grupos.
No Carnaval, o projeto prevê cerca de dois mil participantes no Circuito Osmar, no Campo Grande, com trio elétrico, carro de apoio, ala das baianas, sambistas, bonecões de Santo Amaro, pinturas afro e roda de samba no chão.
A matriz africana está no centro da proposta. A percussão remete à herança dos tambores africanos, enquanto a dança, as roupas, os adereços e as referências aos orixás reforçam a ancestralidade e a espiritualidade presentes na cultura afro-brasileira.
Ki Beleza e a defesa do Carnaval de rua
O Ki Beleza, também identificado na documentação como Samba do P/Ki Beleza, segue a mesma linha de valorização cultural, acrescentando a defesa do Carnaval de rua no Centro Histórico de Salvador.
Depois de participar no Circuito Osmar, o bloco passou, em 2023, 2024 e 2025, a desfilar exclusivamente no Circuito Batatinha, fortalecendo a proposta de valorização do Carnaval de rua.
O projeto prevê 800 participantes, com trio elétrico, carro de apoio, baianas, sambistas, bonecões de Santo Amaro, pinturas afro e roda de samba no chão, aproximando músicos, comunidade e público.
Assim como no Samba & Folia, a matriz africana não aparece apenas como estética, mas como fundamento cultural. Percussão, dança, ancestralidade e referências aos orixás ajudam a contar parte da própria história de Salvador.
A rua como património vivo
Para o público português, existe um ponto de aproximação importante. Durante os Santos Populares, bairros de Lisboa como Alfama, Graça, Bica, Mouraria e Madragoa recebem arraiais, música e dança, enquanto as marchas populares ocupam a Avenida da Liberdade.
As origens e os significados são diferentes, mas existe algo em comum: a comunidade ocupa o espaço público para celebrar e transmitir cultura.
Em Salvador, essa ocupação possui características profundamente afro-brasileiras. O samba carrega marcas da história da população negra, os tambores comunicam ancestralidade, as baianas representam tradições culturais e a rua torna-se um espaço onde passado e presente se encontram.
Os dois projetos também desenvolvem atividades culturais e socioeducativas na região da Liberdade-Curuzu, incluindo ações relacionadas com o terreiro Hunkpame Savalu Vodun Zo Kwe, contribuindo para a preservação da cultura e da religiosidade de matriz africana.
Uma ponte entre Brasil, África e Portugal
Brasil e Portugal partilham a língua, mas possuem experiências históricas e culturais distintas. Nesse encontro entre diferentes culturas do mundo lusófono, Salvador ocupa um lugar singular pela forte presença africana na música, dança, gastronomia, religiosidade e festas populares.
Por isso, quando Samba & Folia e Ki Beleza entram nas ruas, não desfilam apenas blocos carnavalescos.
Desfilam histórias, comunidades e ritmos que atravessaram gerações.
E desfila, sobretudo, uma cultura afro-brasileira que encontrou no samba uma das suas mais poderosas formas de memória, expressão e continuidade.



